Esboço da Escola Sabatina - Lição 10 - O Dia da Expiação escatológico


Esboço da Escola Sabatina - Lição 10 - O Dia da Expiação escatológico



Autor: João Antônio Rodrigues Alves, Mestre em Teologia pelo UNASP, e doutor em Teologia pela Universidad Adventista del Plata. Pastor distrital em Nova Venécia (ES). Casado com a Profa. Me. Daisy Kiekow de Britto Rodrigues Alves, tem dois filhos, Emerson e Karina.

INTRODUÇÃO

O estudo desta semana, sobre o capítulo 8 de Daniel, é de crucial importância para a teologia adventista. Ele estabelece não apenas nosso direito de existir como um movimento profético divinamente designado, como também nos dá uma identidade própria. Ao mesmo tempo, justifica nossa pregação de um juízo que se realiza na esfera celestial, paralelo ao juízo de Daniel 7, em que Deus pronuncia a sentença final sobre os poderes perseguidores deste mundo e vindica Seus santos, concedendo-lhes a eterna salvação por meio de Jesus.

DOMINGO - O ataque do chifre pequeno

A ponta pequena, que aparece no capítulo 8 , após a queda dos reinos universais, assemelha-se na aparência, atividades e destino, com a ponta pequena do cap. 7. Em ambos os capítulos – 7 e 8 – a ponta pequena aparece no mesmo tempo, imediatamente após os impérios universais (7:2-7, 15-20; cf. 8:2-8, 20-22). Tanto no capítulo 7, quanto no 8, ela se levanta em oposição a Deus, os santos e a lei. Tendo em mente o princípio hermenêutico de “repetição-ampliação” para a interpretação de Daniel, o capítulo 8 repete e amplia alguns detalhes das visões anteriores. Assim, o chifre pequeno é aqui descrito como um poder religioso que se intromete na esfera celestial, do culto ao verdadeiro Deus, estabelecendo um sistema de salvação contrário ao do “Príncipe do exército” (Dn 8:11), ou seja, Cristo, de quem é removido o “contínuo”, isto é, o ministério sacerdotal em favor de Seu povo. O chifre pretende ser um caminho alternativo de salvação, e realmente conquistou essa posição, em um ato de rebelião (tradução substitutiva da expressão “por causa das transgressões” do v. 12), deitando abaixo o “lugar do Seu santuário” (v. 11). O termo “lugar” (Heb. mekôn) ocorre 17 vezes no A.T. e, na maioria das ocorrências, significa “fundação”. De acordo com o salmista, “justiça e direito (juízo) são o fundamento do Teu [de Deus] trono” (Sl 89:14). Como o chifre pequeno lançou por terra o lugar do santuário de Deus? Naturalmente isso é simbólico, uma contrafação em relação ao verdadeiro santuário celestial, porém, é uma ação literal em sua implementação na Terra, na qual o chifre se envolveria e teria influência concernente à fundação do santuário de Deus. E conseguiu este poder usurpador ao estabelecer seu próprio exército para ministrar os meios da salvação:  sacerdotes, missas (nas quais supostamente se repete o sacrifício do Calvário), confissão e perdão de pecados, intercessão de santos e Maria. Dessa forma, em vez de o cristão se voltar diretamente para Cristo em busca de perdão e salvação, dirige-se a mediadores terrenos que se arrogam o direito de ministrar a graça divina para os pecadores. Ao substituir o papel de Cristo no santuário celestial pelo serviço de intermediários aqui na Terra, o chifre pequeno “lançou por terra”, simbolicamente, “o lugar de seu santuário”, e dessa forma o profanou.
A visão termina com uma nota triste, quase um lamento: “e deitou por terra a verdade, e... prosperou” (v. 12). O contexto sugere que o termo “verdade” se refere à verdade sobre o diário, a ministração sacerdotal de Jesus, e o santuário. Então, a declaração “deitou por terra a verdade” é um sumário da obra da ponta pequena: contra o Príncipe, contra Seu ministério, contra o lugar do Seu santuário, etc. O chifre pequeno cresceu em poder, afetando até mesmo o Céu. Mas essa situação não seria permanente. Deus daria Sua resposta para restaurar as coisas ao seu estado original. Aresposta veremos no desenvolvimento da lição.
Para reflexão: Qual é meu sentimento ao entender que, ainda que pareça demorar, Deus responde de Seu trono a todas as injustiças que acontecem neste mundo?

SEGUNDA-FEIRA - “Até quando?”

A condição descrita nos versos anteriores leva os seres celestiais a um diálogo que tem início com uma pergunta: “Até quando”? (Heb.ad-matay. Dn 8:13). E essa pergunta é de importância fundamental na determinação do tempo para a realização do juízo investigativo pré-advento, quando a decisão final de Deus será pronunciada. A primeira palavra, ad, é uma preposição temporal que deveria ser traduzida “até”. Está unida ao advérbio interrogativo temporal, matay, significando “quando”. Assim, a tradução correta desta expressão é “até quando”, conforme se encontra na Versão Almeida Revista e Atualizada. Esta expressão aponta para aquilo que deveria ocorrer no fim do período de tempo e depois, ou seja, ao fim do período das 2.300 tardes e manhãs e daí por diante. Isso é um indicativo da importância de se determinar quando terminou este período, pois algo muito relevante na perspectiva da revelação deveria acontecer. 
De fato, a ênfase na questão do verso 13 é sobre o ponto final das 2300 tardes e manhãs e o que deveria ocorrer desde aquele tempo em diante. A ênfase não é sobre a duração (“how long” na maioria das versões inglesas) e sim sobre a terminação (“até quando”) e o que se segue. Essa percepção exegética encontra apoio contextual para a preposição temporal “até” (ad) na resposta do início do verso 14, que por sua vez é seguida por “então” (Heb. waw). Resumindo, o verso 14 responde à questão formulada no verso 13, e poderia ser assim traduzido: “Até concluir o período das 2.300 tardes e manhãs, e então, a partir deste momento histórico-profético, o santuário será purificado”. Esse momento é identificado na profecia como o “tempo do fim” (v. 17, 19; cf. v. 26). Logo, a purificação do santuário predita na profecia seria realizada a partir da terminação do período das 2.300 tardes e manhãs.


TERÇA-FEIRA - Restauração do santuário

O termo “purificado” que aparece em muitas versões, de diferentes idiomas, é frequentemente criticado como sendo uma tradução incorreta do original hebraico. Sem entrar em detalhes quanto a isso, entende-se que estamos diante de um caso em que o original é tão rico de significados que a escolha de uma única palavra não consegue captar toda a amplitude semântica nele incluída. Daí as diferentes propostas dos tradutores, como restaurado, justificado, vindicado e, claro, purificado. Vale lembrar que os tradutores da Septuaginta, versão grega do A.T. realizada no terceiro século a.C., utiliza o termo “purificado”. De igual forma, a versão de Teodócio, poucos séculos depois, também escolheu o termo “purificado”. E assim também Jerônimo, ao realizar a tradução da Vulgata Latina. E muitas versões modernas seguem na mesma direção.
Essa purificação/restauração do santuário está em paralelo com a cena judicial descrita em Daniel 7 (ver Lição do Professor, p. 120). Portanto, Deus responde a todas as questões apresentadas em Daniel 8 durante a “purificação/restauração” do santuário. Esse santuário, e sua ministração, cujo “lugar” foi lançado por terra, será restaurado a seu lugar legítimo; que foi tomado do Príncipe, será restaurado/devolvido a Seu legítimo ministro; sua “condição” também será restaurada à sua pureza original; e, na perspectiva legal, o santuário será vindicado.

QUARTA-FEIRA - Dia da Expiação em Daniel 8

Como adventistas, entendemos que, desde 1844, estamos vivendo no dia antitípico da expiação. Embora o espaço não nos permita uma análise detalhada dos vínculos entre Daniel 8:14 e Levítico 16, destacamos alguns pontos para consideração:

(1) Os animais da visão em Daniel 8, ou seja, o carneiro e o bode, somente eram usados juntos no serviço do santuário no dia da expiação; assim, desde o começo, a profecia já apontava para o dia da expiação;

(2) Três palavras distintas são usadas em referência ao santuário em Daniel 8 e são, obviamente, termos empregados no contexto do culto israelita:

(a) Mekôn (lugar) é usado para designar os santuários terrestre (Is 4:5) e celestial (1Rs 8:39) de Deus; 
(b) Miqdaš (“santuário” – Dn 8:11; Lv 26:2; Sl 68:33-35) se refere ao santuário como um todo – maior parte é o terrestre; algumas vezes, celestial. Identifica o santuário como objeto de ataque dos inimigos de Deus (em Dn 8 é atacado pelo chifre pequeno); 
(c) Qodeš (qodesh - “Santuário) –  palavra hebraica para santuário usada em Daniel 8:14. Essa mesma palavra é usada sete vezes em Levítico 16 (versos 2, 3, 16, 20, 23, 27, 33) para designar o lugar santíssimo do santuário israelita que era purificado no Dia da Expiação. No mesmo capítulo, o lugar santo é mencionado como “o tabernáculo da congregação”. Portanto, o uso da palavra qodesh (santuário) se refere ao ministério especial de juízo realizado no lugar santíssimo pelo sumo-sacerdote no Dia da Expiação, o décimo dia do sétimo mês do ano religioso israelita. Considerando Daniel 8:14 como se referindo ao qodesh antitípico, isto é, o santuário celestial (comp. Hb 8:1, 2; 9:1-14), podemos concluir que Daniel estava se referindo a um juízo celestial conduzido no lugar santíssimo do Santuário Celestial. Da mesma forma como havia uma purificação na Terra, também há uma purificação no Céu.


(3) Os seres celestiais mencionados em Dn 8:13 são chamados “santos" (qadôš - qadosh). No Antigo Testamento, o termo usual para “anjos” é malak. Em Daniel 8 é empregado o termo qadôš para estabelecer um vínculo com a terminologia do santuário. E onde encontramos um “santo” frente a outro “santo” no santuário? No lugar santíssimo.

(4) Na expressão “sacrifício diário” – hattamid – encontramos uma referência às atividades sacerdotais conduzidas no santuário (é importante lembrar que o substantivo sacrifício” não aparece no original; o texto diz apenas que o diário, ou contínuo, isto é, o ministério sacerdotal de Cristo, foi removido pelo chifre pequeno, que estabeleceu um sistema rival de salvação).

Há outros vínculos, mas os apresentados permitem a conclusão de que Daniel 8 é uma profecia acerca do santuário que se vincula, naturalmente, com Levítico, onde se encontram as leis do santuário.

QUINTA-FEIRA - Daniel 8 e 9

O capítulo 8 de Daniel faz referência ao período das 2.300 tardes e manhãs, contudo não oferece um marcador cronológico específico que nos permita datar seu início. Como o primeiro poder apresentado neste capítulo, simbolizado pelo carneiro (v. 3), é identificado com a Medo-Pérsia (v. 20), cujo domínio se estendeu de 539 a 331 a.C., concluímos que o período das 2.300 tardes e manhãs teve seu início em algum momento entre os dois extremos. Mas, se quisermos determinar com precisão a data do seu início, precisamos ir ao capítulo 9 e analisar  sua referência às 70 semanas (Dn 9:24-27). Mas, para fazerisso, é necessário  unir os capítulos 8 e 9. Nesse ponto, alguns questionam a correção de tal procedimento, afirmando que tais conexões não existem. Entretanto, afirmar que as profecias das 70 semanas e das 2.300 tardes e manhãs não estão relacionadas é ignorar completamente alguns elementos encontrados na própria profecia. A seguir apresentamos um resumo dos argumentos que tornam claro os vínculos entre ambas as profecias:

1. O uso da expressão “determinadas” (“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo” – Dn 9:24). O termo “determinadas” é a tradução do verbo hebraico hatak, que significa mais propriamente “cortar” ou “dividir”. O verso 24, então, em uma tradução corrigida, seria: “Setenta semanas estão cortadas para o teu povo...” A pergunta seguinte, naturalmente, é: cortadas de onde? Ora, se estamos lidando com um período de tempo, então a conclusão óbvia é de que ele foi cortado de um período de tempo maior. E onde em Daniel encontramos um período de tempo maior e, ao mesmo tempo, mencionado antes do capítulo 9? A resposta é o período das 2.300 tardes e manhãs do capítulo 8. Portanto, a conclusão é de que temos aqui um argumento importante, que vincula o período das 70 semanas do capítulo 9 com as 2.300 tardes e manhãs do capítulo 8. Assim, uma tradução que leva em consideração os argumentos acima, seria: “Setenta semanas estão cortadas do período das 2.300 tardes e manhãs...”

2. O verbo “entender” é outro vínculo linguístico entre os capítulos. Este é um tema-chave do capítulo 8 (ver v. 5, 15, 16, 23, 27), que reaparece em 9:22, ao começo de uma nova profecia.

3. As conexões temáticas giram ao redor de três temas que ambos os capítulos compartilham, envolvendo três elementos principais: o “Príncipe”, o “santuário” e as “ofertas” (comp. Dn 8:11, 25 com 9:25, 26; 8:11 com 9:26 e 8:12 com 9:27).

4. Outro vínculo entre os capítulos relaciona-se à aparição de Gabriel, o mesmo ser que apareceu anteriormente ao profeta, e que se apresenta outra vez, fazendo referência à visão do capítulo 8.

5. Finalmente, destacamos um elemento de conexão direta entre ambos os capítulos. Essa conexão linguística direta é demonstrada pelo uso do termo “visão”.  No capítulo 9, Gabriel veio para explicar a Daniel a visão mareh: “No princípio das tuas súplicas saiu a ordem, e eu vim para to declarar,... considera, pois,... e entende a visão (mareh)” (9:23). O que é esta visão mareh? Qual é o antecedente linguístico imediato? Onde encontramos esta mesma palavra usada para “visão”? Encontramos em Dn 8:26: “A visão [mareh] da tarde e da manhã... é verdadeira...”. É fundamental observar a referência à expressão “tarde e manhã” que, indiscutivelmente, remete a Dn 8:14: “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs;...”. Desta forma se estabelece um vínculo terminológico definitivo entre os capítulos 8 e 9 de Daniel. Estas duas palavras não se usam como sinônimos, e sim como termos técnicos para se referir a diferentes aspectos desta profecia. Deus usou a palavra mareh para chamar a atenção de Gabriel e Daniel para um aspecto particular da profecia.
Tendo assim estabelecido os vínculos entre os capítulos e, em consequência, entre os seus elementos temporais – 2.300 tardes e manhãs e 70 semanas – podemos fazer os cálculos pertinentes, partindo de “marcos cronológicos” precisos que nos revelam um calendário profético extraordinário dentro do curso da história.

Conclusão

Qual é a extensão do período de tempo referido como “setenta semanas”? Seriam setenta semanas literais? Nesse caso, cerca de um ano e meio? Ou seriam simbólicas? Nesse caso, aplicamos o princípio dia-ano, resultando em um período de 490 anos literais? De fato, a segunda alternativa é a que atende as especificações da profecia. Outra questão é se esse período deve ser tomado como um todo, e assim interpretado, ou ser fracionado (7 + 62 + 1) e interpretar cada unidade como se referindo a eventos isolados, e lançar, como alguns intérpretes, a última semana para um futuro que precede a volta de Cristo. As duas primeiras divisões (7 + 62) devem ser interpretadas conjuntamente e seu cumprimento ocorre na unção do Príncipe, isto é, o batismo de Jesus. A última semana diz respeito ao ministério de Cristo nesta Terra, Sua morte na cruz, terminando com a morte de um profeta – no caso, Estêvão, a última voz profética enviada a Israel (At 7).
E qual é o ponto de partida para as setenta semanas? A profecia diz que é “desde a saída da ordem para restaurar e edificar Jerusalém”. No livro de Esdras encontramos dois decretos relacionados com a reconstrução do templo – o primeiro de Ciro e o segundo de Dario, o Grande, que levou à conclusão dos trabalhos em 516-515 a.C. O terceiro decreto foi dado a Esdras por Artaxerxes I, no sétimo ano de seu reinado, com instruções suficientes para a reconstrução da cidade, tanto na parte administrativa como na de edificações. Além dos argumentos frequentemente utilizados para se datar o ponto de partida em 457 a.C., um estudo recente (Juarez R. Oliveira,Chronological Studies Related to Daniel 8:14 and 9:24-27 [UNASPRESS, 2004]) utiliza cálculos astronômicos para fixar a data da morte de Jesus em 31 d.C., retroagindo ao ponto de partida, assim confirmando, por outra perspectiva, a data inicial de 457 a.C. Assim, somos levados ao término do período maior das 2.300 tardes e manhãs ao ano de 1844, quando o santuário seria purificado/restaurado/justificado/vindicado (Dn 8:14).

Fonte: CPB

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Livros de Ellen White em PDF - Download

Colossenses 2:13-14 - Explicação