Esboço da Escola Sabatina - Lição 6 - O Dia da Expiação


Esboço da Escola Sabatina - Lição 6 - O Dia da Expiação



Autor: João Antônio Rodrigues Alves, Mestre em Teologia pelo UNASP, e doutor em Teologia pela Universidad Adventista del Plata. Pastor distrital em Nova Venécia (ES). Casado com a Profa. Me. Daisy Kiekow de Britto Rodrigues Alves, tem dois filhos, Emerson e Karina.

INTRODUÇÃO


“O capítulo 16 de Levítico apresenta o ritual mais solene do Antigo Testamento e ocupa o centro da estrutura literária do Pentateuco (ver gráfico na Lição do Professor, p. 76). Sua posição central no calendário ritual é também ilustrada pela forma como era referido pelos rabis: “Yoma”, isto é, “O Dia”. Era “O Dia” porque, neste dia específico o sistema sacrifical alcançava seu clímax. Durante todo o ano religioso o sistema de sacrifícios fazia provisão para que os pecados e impurezas rituais fossem removidos dos penitentes e transferidos para o santuário, resultando em sua contaminação. Todo esse acúmulo de impurezas no santuário requeria sua purificação periódica, para que Deus continuasse a residir ali. Isso era realizado no décimo dia do sétimo mês, quando o sumo sacerdote realizava um complexo ritual para purificar todo o santuário. Também nesse dia se fazia uma expiação final por “todos os pecados” dos filhos de Israel (Lv 16:16).
Um aspecto interessante é que, durante todo o ano, o movimento ocorria de fora para dentro do santuário, assim levando os pecados do povo, que eram ali “depositados” até sua remoção no Dia da Expiação (do pecador > animal > santuário). Mas, no Dia da Expiação, o movimento era de dentro para fora: do Lugar Santíssimo > Lugar Santo > Pátio > Deserto (via bode para Azazel).


DOMINGO

A purificação anual 
O sumo sacerdote desempenhava todas as atividades do Dia da Expiação (com a exceção de levar para o deserto o bode destinado a Azazel). O sumo sacerdote iniciava oferecendo uma oferta pelo pecado por si mesmo e pela sua casa (Lv 16:3, 6, 11), depois oferecia o bode da oferta pelo pecado em favor do povo (v. 15). Deve ser destacado que não há nenhuma indicação no texto de que houvesse imposição de mãos ou confissão de pecados sobre o bode que seria sacrificado. A razão para isso é que esse bode era usado para purificar o santuário dos pecados da congregação, que se haviam acumulado ali durante todo o ano. Seu sangue não transferia pecados.
O propósito de todo o ritual envolvendo o bode para o Senhor é declarado no v. 16: “Assim, fará expiação pelo santuário por causa das impurezas dos filhos de Israel, e das suas transgressões e de todos os seus pecados.” Este verso, junto com o v. 21, ao se referir a diferentes tipos de impureza ritual e pecados, revela o tratamento abrangente do problema do pecado no Dia da Expiação. O propósito do ritual nesse dia era eliminar tudo aquilo que pudesse separar o povo de Deus, e restabelecer a harmonia. Ao fim do serviço, o santuário estava purificado e, da mesma forma, o povo estava purificado de seus pecados. Nesse sentido, o Dia da Expiação prefigurava o juízo final, quando o próprio Deus eliminará o problema do pecado para sempre, purificando todo o Universo da presença do pecado.


SEGUNDA-FEIRA 

Além do perdão



No Dia da Expiação, o sumo sacerdote entrava no Lugar Santíssimo, onde a glória de Deus se manifestava, para realizar sua obra em favor do povo, que aguardava ansioso o resultado de sua mediação. Muito estava em jogo nesse dia: vida e morte dependiam dos rituais conduzidos pelo sumo sacerdote. O papel principal do sumo sacerdote era de mediação. Era o mediador entre Deus e Seu povo. 
Compreender o papel do sumo sacerdote no Dia da Expiação auxilia na compreensão do significado da obra de Cristo como nosso Sumo Sacerdote. Entretanto, não se podem ignorar as evidentes diferenças entre o sumo sacerdote levítico e o Sumo Sacerdote celestial. Primeiramente, observamos que Arão era um pecador e necessitava oferecer sacrifício por si mesmo, enquanto Cristo é sem pecado e não necessita oferecer sacrifício por Si mesmo (Hb 7:26, 27). Em segundo lugar, os sacrifícios no santuário terrestre deveriam se repetir anualmente, enquanto o sacrifício de Jesus foi oferecido uma vez por todas (Hb 9:6-14, 25, 26). Outra diferença é que a Arão era permitido entrar no santuário terrestre, enquanto Cristo entrou no santuário celestial (Hb 9:24), “tendo obtido eterna redenção” (Hb 9:12), e age como o único mediador entre nós e Deus (1Tm 2:5). Dessa forma, Ele nos aproxima de Deus, e podemos chegar com ousadia e confiança junto ao trono da graça (Hb 4:16). 

Para reflexão: O ritual do Dia da Expiação aponta para a obra final de Jesus no santuário celestial. Que segurança você experimenta em saber que Jesus é o seu intercessor junto ao Pai?


TERÇA-FEIRA 

Azazel



Quem é Azazel? O termo “Azazel” (˒ăzā˓zēl) ocorre quatro vezes na Bíblia Hebraica e todas as vezes no capítulo 16 de Levítico (v. 8, 10 [duas vezes] e 26). O significado do nome “Azazel” é desconhecido, e constitui motivo de controvérsias no decorrer da história,

envolvendo tanto judeus como cristãos. Alguns entendem que Azazel indica a “função” do bode vivo, ou faz referência ao “lugar” para onde o bode era enviado, ou ainda é uma “ideia abstrata” que aponta para o conceito de “remoção” vinculado ao animal. A maioria dos teólogos contemporâneos, entretanto, entende que o termo é o nome de um ser sobrenatural que se opõe a Jeová. O argumento é o seguinte: “Dado que o verso 8 identifica um bode como ‘para Yahweh’ e o outro bode como ‘para Azazel’, é mais consistente considerar Azazel um nome próprio, provavelmente de um demônio”, no caso, Satanás. Essa posição está em harmonia com a primitiva interpretação judaica.
E qual era a função do bode para Azazel no Dia da Expiação? A primeira observação é de que esse bode não constituía um sacrifício, conforme os seguintes argumentos: (1) ele não era morto ritualmente; (2) seu sangue não era manipulado no altar; (3) em vista de que os pecados do povo o tornavam impuro, ele não poderia ser apresentado como oferta a Jeová; e (4) foi Jeová, e não a congregação, quem determinou qual bode assumiria esse papel. Assim, não há nenhuma indicação de que esse bode fosse um sacrifício.

O que ele era, então? Era apenas o veículo para o transporte dos pecados. O que a comunidade enviava para Azazel não era propriamente o bode, mas sim os pecados que ele carregava. Entretanto, o bode não leva os pecados vicariamente, como um substituto. Esse papel pertence exclusivamente a Cristo.


QUARTA-FEIRA

No Dia da Expiação



Como é destacado neste estudo, Levítico 16 ocupa a posição central na estrutura literária do Pentateuco. Nos capítulos de 1 a 15, o tema predominante é “sangue”: o sangue dos sacrifícios, que fazem expiação ou purificação pelos pecadores. Nos capítulos 17 a 27 pouca menção se faz ao sangue. O tema dominante nesses capítulos finais é “santidade”. Entre essas duas seções está o capítulo 16. Observe o equilíbrio: o sangue justifica e o pecador justificado recebe um chamado para viver em santidade. Em resumo, justificação e santificação estão presentes no livro.

Igualmente, os capítulos 16 e 23 de Levítico, que apresentam a legislação concernente ao Dia da Expiação, apresentam cinco deveres do povo de Deus no Dia da Expiação, e que são relevantes para o cristão contemporâneo:

1. Reunir-se no santuário em santa convocação (23:27). Hoje nos dirigimos ao santuário celestial, desviando o foco de nós mesmos e fixando nossa esperança em nosso Sumo Sacerdote celestial.

2. Identificar-se com a oferta queimada apresentada pelo sacerdote (23:27). Assim como Cristo Se ofereceu totalmente por nós no altar do Calvário, somos levados a nos entregara Ele, como sacrifício vivo (Rm 12:1).

3. Observar um sábado de solene repouso (v. 28, 30-32). É o repouso da graça, confiando unicamente na intercessão de nosso Sumo Sacerdote celestial.

4. Afligir (humilhar) a alma (v. 27, 29, 32). Atitude que nos leva a abandonar toda confiança em nossas próprias realizações e depender inteiramente da obra de Cristo em nosso favor. Essa “aflição de alma” tem seus aspectos práticos no jejum, oração, profundo exame do coração, tristeza pelo pecado e arrependimento (cf. Sl 35:13). Essa atividade oferece apoio adicional à posição da IASD concernente ao uso de joias. O Dia da Expiação era um dia de juízo por excelência no antigo Israel, e, em tal contexto, Deus requeria de Seu povo que removesse os seus ornamentos. Isso é claro em Êxodo 33:5, 6, após a idolatria no Sinai, em que Deus ordenou ao povo que removesse os ornamentos porque seriam submetidos a uma investigação, que é o significado da frase “para que Eu saiba o que te hei de fazer”.
Experimentar a obra de purificação (Lv 16:30). “Como o santuário celestial está sendo purificado, há uma obra correspondente de purificação a ser realizada individualmente no templo da alma de cada adorador” (ver Ml 3:1-3; Ez 36:25-28).

Para reflexão: Qual é minha atitude hoje, sabendo que vivo no Dia Antitípico da Expiação, no tempo do juízo? Estou cumprindo as atividades requeridas de um verdadeiro filho de Deus? Tenho olhado para meu Sumo Sacerdote no santuário celestial? Tenho humilhado minha alma? Tenho permitido que Jesus faça uma obra de purificação em mim?

QUINTA-FEIRA

Yom Kippur de Isaías



Isaías recebeu a visão do capítulo 6 em um momento crítico na história: “o ano da morte do rei Uzias” (v. 1 – aproximadamente 740 a.C. Esse rei também é conhecido como “Azarias” (2Rs 15:1-7). A morte de um rei era preocupante, visto que os conspiradores poderiam se aproveitar da ocasião. Portanto, em contraste com a transitoriedade dos reis humanos, o profeta viu Deus, mais tarde referido como “Rei” (v. 5), assentado em Seu “alto e sublime trono, e as abas de Suas vestes enchiam o templo” (v. 1). Essas referências ao “templo”, “trono”, “rei” e “serafins” (v. 2) apontam para a atividade judicial de Deus, que se realiza no templo celestial. Essa conclusão se encaixa no contexto do chamado de Isaías, que deveria anunciar uma mensagem de juízo para o povo (v. 9).

Ao mesmo tempo, essa experiência foi um momento de juízo para o próprio profeta, que se sentiu “perdido” devido à sua impureza pessoal (v. 5). A santidade de Deus foi previamente destacada pelo cântico do tríplice “santo” dos serafins, e isso destacou ainda mais a pecaminosidade de Isaías.
O que poderia fazer Isaías para resolver o problema de sua pecaminosidade? Nada! A ênfase do texto é a ação divina. A ação expiatória é conduzida pelo serafim, que toca seus lábios com uma “brasa viva” (v. 6), que retirara muito provavelmente do altar de incenso localizado no templo celestial. O resultado dessa ação? “A tua iniquidade foi tirada, e perdoado [purgado, purificado], o teu pecado” (v. 7). O verbo aqui traduzido como “perdoado” aparece repetidas vezes em Levítico 16, da mesma forma que os termos aqui traduzidos como “iniquidade” e “pecado”. Além disso, o verbo aparece na voz passiva, indicando que o perdão/purificação procede de Deus.

Tendo sido purificado por Deus, o profeta recebeu um chamado e se comprometeu com a missão divina.



Para reflexão: A nós também é assegurado o perdão/purgação de Deus para nossos pecados/impurezas/iniquidades. Mas, como temos respondido ao chamado de Deus para compartilhar as novas do Evangelho? Imitamos o exemplo de Isaías? Se não, por que não?


Conclusão

Vivemos no Dia da Expiação Antitípico. O Céu contempla com interesse as atividades do Sumo Sacerdote celestial. Também observa como os seres humanos reagem a essas verdades transcendentes. É um tempo de purificação, de preparação, de exame pessoal, de contrição, arrependimento e entrega. O que temos feito? Como temos conduzido nossa vida? Temos consciência de algum pecado que precisa ser confessado e abandonado? Há alguma área de nossa vida que precisa ser purificada? O que estamos esperando para nos entregar inteiramente ao Senhor?


Cf. Alberto R. Treiyer, The Day of Atonement and the Heavenly Judgment: From the Pentateuch to Revelation, 231-265; Roy Gane, Cult and Character: purification offerings, Day of Atonemen, and theodicy, 242-266; Judith M. Blair, De-Demonising the Old Testament(Tübingen: Mohr Siebeck, 2009), 16-24, 55-62; J. De Roo, “Was the Goat for Azazel destined for the Wrath of God?”, Biblica 81 (2000): 233–241.

Cf. a extensa lista apresentada por Treiyer em The Day of Atonement and the Heavenly Judgment, 231, nota 3; Gane, Cult and Character, 250, nota 23. Ver também Questões sobre doutrina (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, [2009], p. 286-287), para exemplos de autores evangélicos, de diferentes denominações – Anglicana, Presbiteriana, Luterana, Discípulos de Cristo, Congregacional e Metodista – que interpretam Azazel como um símbolo para Satanás.

Matthews, V. H., Chavalas, M. W., & Walton, J. H., The IVP Bible background commentary: Old Testament (electronic ed.) (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000). (Comentário sobre Lv 16:10).

Cf. Robert Helm, “Azazel in Early Jewish Tradition”, Andrews University Seminary Studies 32/3 (Autumn 1994): 217-226; William H. Shea, “Azazel in the Pseudepigrapha”, Journal of the Adventist Theological Society, 13/1 (Spring 2002): 1-9.

J. E. Hartley, “Atonement, Day of”. Dictionary of the Old Testament: Pentateuch, 59. Cf. Blair, De-Demonising the Old Testament, 61.
Baseado em Richard M. Davidson, “The Good News of Yom Kippur”, Journal of Adventist Theological Society 2/2(1991): 14-20.
Ibid., 15.
Ibid., 17-18.
Ibid., 18-19.
Elias B. de Souza, The Heavenly Sanctuary/Temple Motif in the Hebrew Bible: Function and Relationship to the Earthly Counterparts(Adventist Theological Society Dissertation Series, 2005), 241.

Fonte: CPB

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Livros de Ellen White em PDF - Download

Colossenses 2:13-14 - Explicação