Esboço da Escola Sabatina - Lição 9 - O Juízo pré-advento



Esboço da Escola Sabatina - Lição 9 - O Juízo pré-advento



Autor: João Antônio Rodrigues Alves, Mestre em Teologia pelo UNASP, e doutor em Teologia pela Universidad Adventista del Plata. Pastor distrital em Nova Venécia (ES). Casado com a Profa. Me. Daisy Kiekow de Britto Rodrigues Alves, tem dois filhos, Emerson e Karina.

INTRODUÇÃO


O tema do juízo é bíblico e era preeminente nos ensinos de Jesus, como na parábola das ovelhas e dos bodes (Mt 25:31-46), do trigo e do joio, da festa de bodas. Também é referido por Paulo (At 17:31; Rm 14:10; 2Co 5:10) e Pedro (1Pe 4:5, 17).  Naturalmente, isto deve nos alertar para a seriedade do assunto, que não deve ser passado por alto, como se fosse um apêndice teológico (ou um ensino bíblico) descartável e sem importância para os cristãos. Conforme vimos nos textos acima, o juízo diz respeito a todos, e não somente a alguns.

Sendo assim, perguntamos: Quais pensamentos vêm à sua mente ao pensar no juízo divino? Quais sentimentos vêm ao seu coração? Ansiedade? Angústia? Medo? Incerteza? Condenação? Destruição? Punição? Terror?
O livro do Apocalipse afirma que o “vencedor” terá o privilégio de se alimentar da “árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus” (Ap 2:7; cf. 22:2). A referência à árvore da vida naturalmente nos remete ao relato da queda do homem no Éden e sua consequente expulsão do mesmo. Temos, assim, no encerramento da história humana, uma reversão que conduz ao plano original de Deus: um juízo divino precedeu a saída do jardim; um juízo divino precede o retorno a esse mesmo jardim. Assim, para o povo de Deus, o juízo significa salvação, o direito à árvore da vida, de entrar na cidade santa pelas portas.

DOMINGO - A visão e o juízo


O tema do juízo também se destaca no livro de Daniel. Começa pelo próprio nome do profeta, que significa “Deus é meu Juiz”, e transmite a mensagem de que Deus julga. Vemos essa mensagem já no primeiro capítulo, quando é dito que Deus entregou (Hb.natan) a Jeoaquim nas mãos de Nabucodonosor (Dn 1:2), ou seja, não foi uma vitória militar, mas sim um ato de juízo divino. No capítulo 2  o juízo sobre as nações é enfatizado; no capítulo 3 há um aspecto de vindicação, quando Deus reverte a decisão do rei, que condenou à morte os três hebreus, e Deus interveio para salvá-los da fornalha ardente; no capítulo 4 há um juízo sobre Nabucodonosor; no capítulo 5 há um juízo sobre Belsazar; no capítulo 6 Daniel é vindicado e a decisão real é revertida por Deus, e Daniel é liberto da morte pelos leões.

Chegamos então ao capítulo 7, onde encontramos uma clara referência a um juízo que se realiza na esfera celestial. A estrutura literária deste capítulo revela que o juízo é o tema central desta profecia (ver Lição do Professor, p. 115). E por que encontramos o juízo no centro deste capítulo? Observe que os primeiros versos da visão descrevem um quadro em que os poderes deste mundo estão agitados, lutando entre si para ocupar o primeiro lugar no cenário da história. Vemos sua sucessão, pois todos ambicionam o mesmo lugar e não há lugar para todos. Na profecia é designado como “domínio”: cada nação tem seu tempo para dominar, sendo então sucedida por outra. Mas os santos do Altíssimo estão, de alguma forma, sendo afetados pelas ações desses “dominadores” terrenos, especialmente pelo “chifre pequeno”, que “falava com insolência” (v. 8, 20), “fazia guerra contra os santos” (v. 21), proferia “palavras contra o Altíssimo”, magoaria “os santos”, cuidaria em “mudar os tempos e a lei”, e os santos lhe seriam entregues nas mãos por “um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (v. 25).
Assim, num contexto em que o destino da humanidade parece depender dos caprichos ou ambições do poder de cada reino que surge no cenário mundial; cenário em que um poder religioso profere palavras insolentes contra o próprio Deus e persegue os santos, é natural perguntar: Até quando perdurará esta situação de aparente abandono dos santos? Qual é a reação de Deus diante da atividade da ponta pequena? Somos, então, introduzidos no tribunal celestial. Deus não está alheio ao que acontece na Terra, especialmente quando Seus filhos são afetados. Em algum momento Ele age e Sua ação é assentar-Se para julgar (v. 9), na presença dos seres celestiais (v. 10). Este é um juízo que ocorre antes do advento de Cristo, daí ser chamado de pré-advento. É também denominado de “investigativo”, que qualifica sua natureza. Isto é destacado pela referência aos livros que são abertos (v. 10), ou registros da vida daqueles que são julgados e que não se encontram ali pessoalmente. A referência à abertura dos livros nesta cena celestial revela que neste juízo está envolvido um exame de registros de algum tipo. Logo, este juízo celestial é investigativo. Como este juízo afeta os santos, veremos a seguir.


SEGUNDA-FEIRA - Modelo de julgamento



Alguns estudiosos podem até questionar o conceito do juízo, particularmente o investigativo, como um exemplo de elaboração de ensinos sem a devida fundamentação nas Sagradas Escrituras. Podem também argumentar que este ensino, em especial, depende de um método de interpretação que se fundamenta em um único texto bíblico, ou então que não considera o contexto no qual se encontra determinado texto, ou ainda que se leia na Bíblia aquilo que não se encontra nela. Tais argumentos concluem que o ensino acerca do juízo investigativo pré-advento é contrário à evidência bíblica. Mas, seria realmente assim? Ou o conceito de um juízo investigativo pode ser fundamentado em mais que um texto-prova, considerando o contexto e atentando para toda a evidência bíblica? 

A lição menciona quatro exemplos: Adão e Eva (Gn 3), Caim (Gn 4), Babel (Gn 11) e Sodoma (Gn 18, 19). Em cada um desses exemplos, Deus é retratado como Alguém que investiga os fatos relacionados. Nada é dito acerca da onisciência divina, ainda que esse atributo em nenhum momento seja questionado. Na verdade, o que se destaca é que, apesar do conhecimento completo que Deus tem de todas as coisas, Ele investiga, conduz um procedimento judicial e chega a uma decisão em cada caso.
Encontramos ainda outros exemplos de juízo investigativo. Entre os juízos diretamente relacionados com o povo de Deus, destaca-se o de Judá, descrito em Ezequiel 1-10, que é o paralelo mais próximo do juízo que se realiza no Céu no momento presente. Nesses capítulos encontramos uma descrição do trato de Deus com Seu povo escolhido nos últimos dias da monarquia do reino do sul, e pode ser visto como um microcosmo ou tipo do trato de Deus com Seu povo professo antes do fechamento final do tempo de graça. E qual foi o procedimento de Deus nos dias de Ezequiel, nos anos finais da história de Judá, antes que o juízo fosse executado? O procedimento foi um juízo investigativo, realizado durante certo período de tempo, a partir do lugar santíssimo do santuário. Como resultado desse juízo, o  povo de Deus foi dividido entre os que realmente O serviam e os que não O serviam. Em outras palavras, enquanto Deus julgava Seu povo desde Seu templo, os indivíduos foram distinguidos entre justos e ímpios, remanescente e não remanescente. 
Outro exemplo de investigação é encontrado na parábola das bodas relatada em Mateus 22:1-14. Primeiro vem a investigação: o rei inspeciona os convidados. O resultado determina a permanência ou exclusão das bodas. Concluímos, portanto que, dizer que a Bíblia não sabe nada sobre um juízo investigativo é ignorar uma quantidade significativa de material bíblico que o sustenta.

Por outro lado, a realidade do juízo em Daniel 7, envolvendo o povo de Deus, deve ser analisadaem seu contexto. E qual é o contexto? De perseguição, opressão e mesmo a morte, praticada por um inimigo de Deus e de Seu povo, aqui descrito como um “chifre pequeno”. O que Deus faz por Seu povo? A resposta encontra-se no verso 22: o Ancião de Dias, ou seja, Deus, faz “justiça aos santos” e eles possuem o reino. Portanto, a condenação a que os santos foram submetidos pelos poderes deste mundo, sejam eles políticos ou religiosos, será revertida no tribunal celestial, os santos serão vindicados por Deus e possuirão o reino celestial para sempre.


TERÇA-FEIRA - Hora do juízo


No tempo do antigo Israel, o Dia da Expiação, que era um dia de juízo para o povo, era precedido pela festa das trombetas (Lv 23:23-25; Nm 29:1-5). Começava no primeiro dia do sétimo mês e culminava com a santa convocação do Dia da Expiação no décimo dia. É como se o povo fosse alertado pelo som das trombetas nesse período de dez dias, para se preparar para o dia do juízo que logo aconteceria. Esse dia de juízo para Israel não chegava de surpresa. Todos eram alertados pelo toque das trombetas e assim poderiam se preparar. Se o juízo é algo tão importante para os filhos de Deus, naturalmente Ele não deixaria Seu povo hoje sem uma indicação acerca do tempo em que o juízo aconteceria. Assim, é de se esperar que a Bíblia ofereça informações para nos ajudar neste processo de estabelecer uma data para o início do juízo. O primeiro passo é observar o contexto em que ocorrem as referências ao juízo no capítulo 7 de Daniel. Na visão, o profeta contempla alguns poderes simbolizados por animais, interpretados como Babilônia (626-539 a.C.), Medo-Pérsia (539-331 a.C.), Grécia (331-168 a.C.) e Roma (168 a.C.-476 d.C.). Depois deles se levanta outro poder, simbolizado por um chifre pequeno, a quem é designado um período de “um tempo, dois tempos e metade de um tempo”. Esse período é mencionado sete vezes na Bíblia, mas de diferentes maneiras: “tempo, tempos e metade de um tempo”, “quarenta e dois meses” e “mil duzentos e sessenta dias” (cf. Dn 7:25; 12:7; Ap 11:2; 11:3; 12:6; 12:14; 13:5). Aplicando o princípio de interpretação de que um dia profético equivale a um ano literal, chegamos a 1.260 anos literais durante o qual o chifre pequeno exerceria seu “domínio”. As três referências ao juízo em Daniel 7 sempre ocorrem após a menção do chifre pequeno e suas atividades.

No texto de Daniel 7:26 encontramos o advérbio temporal “depois” para indicar quando seria estabelecido o juízo. A pergunta óbvia é: depois de quê? Naturalmente, depois de um período de tempo. E qual é esse período de tempo? Aquele mencionado no verso 25 – “um tempo, dois tempos e metade de um tempo”, ou 1.260 anos literais. Concluímos, portanto, que o juízo começaria algum tempo depois do término desse período. E quando terminaria esse período? Encontramos uma indicação em Apocalipse 13:3, que nos informa que uma das cabeças da besta foi “golpeada de morte”, ou, em uma tradução ampliada, com base na preposição grega eis utilizada no verso, “golpeada com o objetivo de causar a morte”. E foi exatamente esse o objetivo dos revolucionários franceses, quando ordenaram a deposição de Pio VI e que, de fato, aconteceu em 15 de fevereiro de 1798. Essa data, portanto, assinala o fim do período de “domínio” de 1.260 anos do chifre pequeno de Daniel 7. E, segundo o texto, o tribunal se assentaria “depois” (Dn 7:26) dessa data, sem especificar precisamente quando ocorreria. A precisão encontraremos ao estudar a lição seguinte.

QUARTA-FEIRA - No fim do julgamento



Quais serão os resultados do juízo investigativo pré-advento? Ou ainda, quem será afetado pelas decisões do tribunal celestial? Já observamos que o capítulo 7 de Daniel situa o juízo em um contexto de poderes políticos e religiosos, que afetam, de alguma forma, os filhos de Deus. Embora o destino deste mundo pareça ser o resultado da cobiça e da ambição humana, com reinos que se sucedem no cenário da história, o juízo torna evidente que a palavra final pertence ao Deus do Céu. Os reinos simbolizados pelos animais tiveram seu tempo de domínio e chegaram ao seu ocaso. O domínio, finalmente, pertence ao Filho do homem (Dn 7:14). E o Filho do homem compartilhará esse domínio com os Seus santos (cf. v. 27), a quem o Ancião fez justiça, isto é, vindicou no juízo (v. 22). E quanto ao chifre pequeno? A profecia declara que ele será consumido e destruído “até ao fim” (v. 26). Temos, assim, resultados positivos e negativos no juízo. Deus também é vindicado neste juízo, pois em Sua justiça Ele perdoa aos Seus santos, e condena a quem rejeitou Sua oferta de salvação. Todo o Universo reconhecerá a justiça de Deus ao lidar com o problema do pecado e colocar um ponto final neste drama cósmico.
Destacamos aqui um maravilhoso contraste entre o relato da aparição do personagem celestial no capítulo 3 com a visão do capítulo 7.  Na visão da corte celestial (cap. 7), em que o Ancião de Dias conduz os trabalhos do tribunal, entra em cena um ser “semelhante a um Filho de homem” (Dn 7:13). O contraste entre os capítulos destaca uma mensagem de confiança e segurança. No capítulo 3, que trata de um episódio ocorrendo neste mundo, o protetor se apresenta como um ser celestial, com todo o poder para livrar da mão dos tiranos perseguidores. Quando os fiéis de Deus enfrentam perseguições neste mundo, o Filho de Deus manifesta Sua presença e age poderosamente em seu favor.  O Deus Altíssimo desce ao nível dos seres humanos. Para salvar Seus servos do fogo, Ele mesmo passa pelo fogo (Dn 3:25). No capítulo 7, que está concentrado na esfera celestial, o ajudador é semelhante a nós, Ele conhece as dores, as dificuldades e os desafios que a humanidade enfrenta, e sabe o significado de permanecer fiel em meio às provações. Seja na Terra, seja no Céu, quem nos ajuda está plenamente qualificado para defender nossa causa e nos conceder a vitória final.

QUINTA-FEIRA - Certeza responsável


Como Davi pôde se regozijar com a certeza do juízo divino? Afinal, não estava ele consciente de seu pecado e da seriedade do juízo? Adultério, mentira, assassinato. Parece pouco? De fato, Davi reconhecia seu pecado (ver Salmo 51:3, 4). Mas ele se apegava à promessa de justificação que somente poderia receber de Deus. Seu clamor era: “Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo” (Sl 51:7). O hissopo era usado para aplicar o sangue do sacrifício (cf. Lv 14:4-6; Nm 19:18; Êx 12:22). Portanto, Davi clamou a Deus pela aplicação em sua vida do sangue redentor. E esta deve ser a atitude do cristão hoje: no juízo clamamos pelo sangue de Cristo, mediante quem nos apresentamos na corte celestial. Ele nos representa. E, se estamos cobertos com Seu sangue, não há temor, incerteza, insegurança. O contrário é verdadeiro: estamos confiantes de que, em Jesus, nossos pecados foram perdoados e a salvação é garantida.

E como isso afeta nossa vida no presente? Voltando à tipologia do santuário, no livro de Levítico encontramos uma ênfase na justificação (caps. 1-15) e na santificação (caps. 17-27). O chamado à santidade ocorre após a purificação do santuário e do povo no Dia da Expiação. A aplicação teológica é clara: se somos justificados por Cristo, somos chamados a viver em santidade. Cada aspecto de nossa vida deve estar em harmonia com a vontade de nosso Salvador. Não busco fazer minha própria vontade. Não busco argumentos para justificar comportamentos que satisfazem unicamente minha vaidade pessoal, ou meus gostos, preferências, etc. Minha pergunta não é: “por que não posso fazer isto?” Ao contrário, perguntarei, como o carcereiro de Filipos: “Que devo fazer para que seja salvo?” (At 16:30). Estarei ocupado em conhecer o Senhor, a vontade de meu Senhor, conforme expressa nas Sagradas Escrituras, em satisfazer ao Senhor da minha vida. O mundo não definirá os valores que regerão minha vida, a moda que irei usar. Não estarei ocupado em determinar o limite máximo do que posso fazer sem incorrer em alguma transgressão. Em outras palavras, até onde posso me afastar de Deus e não perder a salvação? Estarei, isso sim, ocupado em me aproximar mais e mais de Deus até que tenha a mente de Cristo (1Co 2:16). Os pensamentos serão ocupados com as coisas do Alto, e não da Terra  (Cl 3:1, 2). Viverei na expectativa do encontro com meu Senhor. E, embora desempenhando diferentes profissões, nossas energias serão sempre aplicadas naquilo que é de valor eterno.

Conclusão


O tribunal está em sessão. Deus, o Pai, o preside. Jesus, o Filho do Homem, é nosso Advogado e Intercessor. Não há razão para temer. Mas há uma motivação para entregar a vida, sem reservas, nas mãos do Salvador. Afinal, o veredito favorável ao pecador depende da aceitação da obra de Cristo por nós (justificação) e em nós (santificação). Não há nada que possamos fazer neste processo, a não ser a entrega da vida. E isso naturalmente implica viver como súditos de Cristo, que se torna Senhor de nossa vida, e nossa vida se torna dEle, vivida para a glória de Seu nome.


Fonte: CPB

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